sexta-feira, 27 de novembro de 2009

O resto é desperdício



No fundo do quarto ela se sente atirada. Acende um cigarro. Do fogo deseja a brasa, o resto é desperdício.

Ela sabe que pode morrer enquanto movimenta seu braço, sem tempo para um simples soluço – assim como qualquer outra mulher de vinte e sete anos de idade de olhos escuros e peitos macios. Se olha no espelho. Se ele pode refletir, não importa, ele não se sabe e não deseja. A complexidade é humana. Uma flor está em flor porque um vento não a despetalou, e por isso ela é ainda uma flor, sem nome, sem cor, enquanto não lhe dão. O sol não faz o movimento em torno da Terra assim como nunca o fará conforme ou contra seu desejo, porque seu desejo é poesia. Ele não sonha, não queima, não arde. O sol é ceticismo, nós é que o somos, ele apenas é. E se a flor está em meu caminho enquanto o sol está se pondo, eu estou se pondo o sol, a flor não quer me fazer chorar. Eu é que a sou, o sol é o sol, a flor é a flor, e eu sou.

A banana apodrece no cesto porque há um ciclo de decomposição, e se eu choro a vendo não importa, a banana apenas se apodrece. O ferro não sabe que sua ferrugem me corrói.

Ela acende outro cigarro, mas quer apenas a fumaça. Porque é grisalha. Porque a fumaça não tem forma, ela é. A forma da fumaça é ser. Mas não será na fumaça que ficarão seus sonhos, nem no sangue que escorre sobre um corpo de um animal ferido – que sangra, grita, morre. Ela levará consigo tantas coisas que tentou deixar no mundo e no corpo. Mas deixará apenas seus restos. O corpo caído se tornará flor, sol, coisa. Ela não sabe. Outras pessoas sequer saberão de tantas coisas que em si queimaram, corroeram-na, sem deixar cicatriz na pele. 

Em suas costas tem a tatuagem de uma data distante – ela sempre gostou de astrologia. Quando morrer, serão apenas números, formas, cor. Perderá a pronúncia mesmo se a lerem. Sua tatuagem estará como sempre esteve, mas agora terá vida apenas para outras vidas e depois se decomporá completando um ciclo da natureza. Pensando nisso ela se imagina refletida num esgoto. Arrepende-se, sabe que podia ter evitado. Fecha os olhos, traga. E lhe vem a imagem de uma cadeira em um corredor onde repousassem roupas cheirando a cigarro de uma festa da noite passada.

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Sussurando em versos e trovas.