Eu queria ser criança, às vezes. Quando se é adulto tem que se explicar tudo. Eu queria ser criança, sim, eu queria, às vezes.
Eram sete horas, fui para o banho. Liguei o chuveiro antes de tirar a roupa. Desprendi os cabelos e mordi uma mecha. Iria cortá-los. Sempre achei deselegante mulher grávida de cabelos compridos. Ainda não tinha crescido meu ventre, mas já o esperaria pronta para ser mãe. Então senti a parte de dentro de mim, e vinha morna. Enfrentei a imagem refletida no espelho olhando-a profundamente, tentando corroer ela, não a mim.
Desliguei o chuveiro, o som da água me perturbava. Abri a gaveta do armário, peguei as maquiagens. e comecei a me pintar. Fui reencontrando um rosto que estava ultimamente de costas – costas sem minha tatuagem de duas máscaras. O suave pincel que durante os anos de teatro, quase tonta de rotina, continuava constantemente a me lembrar versos de pétalas, sentia-o apenas como simples cerdas. Os dedos trêmulos pareciam estar roçando minha pele com a brasa de um cigarro que misturasse sangue e cinzas, embora sem dor.
Toquei no meu seio com as mãos manchadas de tinta. Não sei se sorri, mas consegui senti-lo amamentando. Senti culpa por ter dito ao Marcelo que não iria à janta semestral do escritório, àquela mesma janta que eu implorava para que acontecesse mensalmente, porque não. E me sentindo frágil demais por ter parecido tão forte, justifiquei dizendo que é sem justificativa. Não conseguiria explicar – nem a ele, nem a mim – nada mais do que a palavra NÃO. Eu queria que ele esquecesse durante segundos tudo o que já tínhamos vivido, tudo o que eu havia dito, a minha coerência! Atrás dos óculos de armação escura com detalhes metálicos de lente 0,5 graus, repousava meu NÃO.
Lembrei do dia que encontrei uma flor despetalada. Estava em minhas primeiras aulas do colégio e não tive coragem de levá-la para a professora. Eu queria a flor, mas não quis arrancá-la. Minha mãe tinha falado que as flores sentem dor como a gente quando as machucamos e uma vez eu rezei para que Deus fosse bondoso com o vento, porque eu achava que ele não sabia disso.
Levantei e desconheci o rosto pintado, tinha esquecido. Parei a olhá-lo no espelho como alguém da platéia. Liguei novamente o chuveiro e deixei a água correr, estava quente. Abri mais a torneira e expus o rosto a lavá-lo. A tinta corria meu corpo; desbotava-me.
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