terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Ou qualquer coisa que tivesse mofo.



“Ter um mundo na mão sem ter mais onde se segurar
Se meu mundo cair, eu que aprenda a levitar”.
José Miguel Wisnik

Ela chegou atrasada na aula, abriu a porta lentamente e pediu licença. Estava com dor de cabeça e um pouco de cólicas. Enquanto esperava o ônibus – o vento mal movimentava seus curtos cabelos vermelhos – , pensou em desistir. Estava confusa. Buscava a penumbra sem procurá-la, esperava-a, e se possível que uma brisa lhe roçasse o rosto.

Passou o cartão na roleta e sentou ao lado de uma menina de cabelo azul e olhos castanhos. Sentia uma náusea leviana, mas sabia que não iria descer. Passou a olhar pela janela o trajeto do ônibus e as pessoas caminhando na rua.  Voltou a olhar  para a menina do cabelo azul – a menina lhe era tóxica, e ela a achava linda. Isto a  incomodava desde que a descobriu. Mas era como se a confusão fosse mais interna, como se estendesse sobre um passado que não viveu. E ela a achava linda.

A aula estava cansativa, resolveu ir embora. Pagou o ônibus em dinheiro, sentira medo de chorar ao abrir o zíper da bolsa. Desceu antes de chegar a sua parada necessitava encostar no útero daquela noite. Enquanto caminhava, viu perto da calçada um tomate sobre uma poça de água, então atravessou a rua. Atravessou-a pensando em um arranjo de flores murchas. Ou qualquer coisa que tivesse mofo.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

O resto é desperdício



No fundo do quarto ela se sente atirada. Acende um cigarro. Do fogo deseja a brasa, o resto é desperdício.

Ela sabe que pode morrer enquanto movimenta seu braço, sem tempo para um simples soluço – assim como qualquer outra mulher de vinte e sete anos de idade de olhos escuros e peitos macios. Se olha no espelho. Se ele pode refletir, não importa, ele não se sabe e não deseja. A complexidade é humana. Uma flor está em flor porque um vento não a despetalou, e por isso ela é ainda uma flor, sem nome, sem cor, enquanto não lhe dão. O sol não faz o movimento em torno da Terra assim como nunca o fará conforme ou contra seu desejo, porque seu desejo é poesia. Ele não sonha, não queima, não arde. O sol é ceticismo, nós é que o somos, ele apenas é. E se a flor está em meu caminho enquanto o sol está se pondo, eu estou se pondo o sol, a flor não quer me fazer chorar. Eu é que a sou, o sol é o sol, a flor é a flor, e eu sou.

A banana apodrece no cesto porque há um ciclo de decomposição, e se eu choro a vendo não importa, a banana apenas se apodrece. O ferro não sabe que sua ferrugem me corrói.

Ela acende outro cigarro, mas quer apenas a fumaça. Porque é grisalha. Porque a fumaça não tem forma, ela é. A forma da fumaça é ser. Mas não será na fumaça que ficarão seus sonhos, nem no sangue que escorre sobre um corpo de um animal ferido – que sangra, grita, morre. Ela levará consigo tantas coisas que tentou deixar no mundo e no corpo. Mas deixará apenas seus restos. O corpo caído se tornará flor, sol, coisa. Ela não sabe. Outras pessoas sequer saberão de tantas coisas que em si queimaram, corroeram-na, sem deixar cicatriz na pele. 

Em suas costas tem a tatuagem de uma data distante – ela sempre gostou de astrologia. Quando morrer, serão apenas números, formas, cor. Perderá a pronúncia mesmo se a lerem. Sua tatuagem estará como sempre esteve, mas agora terá vida apenas para outras vidas e depois se decomporá completando um ciclo da natureza. Pensando nisso ela se imagina refletida num esgoto. Arrepende-se, sabe que podia ter evitado. Fecha os olhos, traga. E lhe vem a imagem de uma cadeira em um corredor onde repousassem roupas cheirando a cigarro de uma festa da noite passada.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Ela não pintaria os cabelos por ele


Ela não pintaria os cabelos por ele. Quem sabe fosse capaz de trocar seu músico de jazz favorito, ou até mesmo o jazz pelo blues. Uma nova maneira de vestir-se era uma hipótese a ser considerada. Os cabelos, não.

Lembra com saudade daquela noite – não possuía lua cheia nem estrelas, ou nem percebera. Ele pôs a mão no bolso, tirou um cigarro. Pegou a caixa de fósforos para acendê-lo – mas cigarro tem de ser aceso com isqueiro, pensava ela. Entretanto, surpreendeu-a: guardara o fósforo usado de volta na caixa. E ela ainda não havia visto que os seus olhos eram verdes.

Mas os homens mudam. A separação fora inevitável. Talvez se eu houvesse tido um filho... Não! Ela também não o queria. Até a cor dos olhos mudaram. Agora, azuis.

Ela fizera uma única plástica. Ainda possuía os seios erguidos. Os saltos altos começou a usá-los menos frequentemente. Mas nos dias de reunião não havia problemas, até sentia-os confortáveis.

 Ela saía com amigas nos finais de semana. Sexta-feira, principalmente. No sábado, gostava de ver filmes. Os sábados eram os dias que mais lembrava dele. E justamente em um sábado, em um sábado à tarde. Logo em um sábado – no dia da criação –, ela o vira com uma menina cabelos negros.

Então, resolveu conquistá-lo novamente. Ela estava disposta a fazer tudo por ele. Mas os cabelos, não.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Desbotava-me


Eu queria ser criança, às vezes. Quando se é adulto tem que se explicar tudo. Eu queria ser criança, sim, eu queria, às vezes.
Eram sete horas, fui para o banho. Liguei o chuveiro antes de tirar a roupa. Desprendi os cabelos e mordi uma mecha. Iria cortá-los. Sempre achei deselegante mulher grávida de cabelos compridos. Ainda não tinha crescido meu ventre, mas já o esperaria pronta para ser mãe. Então senti a parte de dentro de mim, e vinha morna. Enfrentei a imagem refletida no espelho olhando-a profundamente, tentando corroer ela, não a mim.

Desliguei o chuveiro, o som da água me perturbava. Abri a gaveta do armário,  peguei as maquiagens. e comecei a me pintar. Fui reencontrando um rosto que estava ultimamente de costas – costas sem minha tatuagem de duas máscaras. O suave pincel que durante os anos de teatro, quase tonta de rotina, continuava constantemente a me lembrar versos de pétalas, sentia-o apenas como simples cerdas. Os dedos trêmulos pareciam estar roçando minha pele com a brasa de um cigarro que misturasse sangue e cinzas, embora sem dor.

Toquei no meu seio com as mãos manchadas de tinta. Não sei se sorri, mas consegui senti-lo amamentando. Senti culpa por ter dito ao Marcelo que não iria à janta semestral do escritório, àquela mesma janta que eu implorava para que acontecesse mensalmente, porque não. E me sentindo frágil demais por ter parecido tão forte, justifiquei dizendo que é sem justificativa. Não conseguiria explicar – nem a ele, nem a mim – nada mais do que a palavra NÃO. Eu queria que ele esquecesse durante segundos tudo o que já tínhamos vivido, tudo o que eu havia dito, a minha coerência! Atrás dos óculos de armação escura com detalhes metálicos de lente 0,5 graus, repousava meu NÃO.

Lembrei do dia que encontrei uma flor despetalada. Estava em minhas primeiras aulas do colégio e não tive coragem de levá-la para a professora. Eu queria a flor, mas não quis arrancá-la. Minha mãe tinha falado que as flores sentem dor como a gente quando as machucamos e uma vez eu rezei para que Deus fosse bondoso com o vento, porque eu achava que ele não sabia disso.

Levantei e desconheci o rosto pintado, tinha esquecido. Parei a olhá-lo no espelho como alguém da platéia. Liguei novamente o chuveiro e deixei a água correr, estava quente. Abri mais a torneira e expus o rosto a lavá-lo. A tinta corria meu corpo; desbotava-me.

o que será que me dá

Sussurando em versos e trovas.