terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Ou qualquer coisa que tivesse mofo.



“Ter um mundo na mão sem ter mais onde se segurar
Se meu mundo cair, eu que aprenda a levitar”.
José Miguel Wisnik

Ela chegou atrasada na aula, abriu a porta lentamente e pediu licença. Estava com dor de cabeça e um pouco de cólicas. Enquanto esperava o ônibus – o vento mal movimentava seus curtos cabelos vermelhos – , pensou em desistir. Estava confusa. Buscava a penumbra sem procurá-la, esperava-a, e se possível que uma brisa lhe roçasse o rosto.

Passou o cartão na roleta e sentou ao lado de uma menina de cabelo azul e olhos castanhos. Sentia uma náusea leviana, mas sabia que não iria descer. Passou a olhar pela janela o trajeto do ônibus e as pessoas caminhando na rua.  Voltou a olhar  para a menina do cabelo azul – a menina lhe era tóxica, e ela a achava linda. Isto a  incomodava desde que a descobriu. Mas era como se a confusão fosse mais interna, como se estendesse sobre um passado que não viveu. E ela a achava linda.

A aula estava cansativa, resolveu ir embora. Pagou o ônibus em dinheiro, sentira medo de chorar ao abrir o zíper da bolsa. Desceu antes de chegar a sua parada necessitava encostar no útero daquela noite. Enquanto caminhava, viu perto da calçada um tomate sobre uma poça de água, então atravessou a rua. Atravessou-a pensando em um arranjo de flores murchas. Ou qualquer coisa que tivesse mofo.

o que será que me dá

Sussurando em versos e trovas.